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CARPE DIEM: Sobre as pressas e as inteirezas

Depois de um período sem postagens e com o tempo escasso por conta de uma nova graduação no período da noite, vejo minha vida ficar corrida e cheia de tantas pressas imerecidas (Embora com colegas e companhias maravilhosas, cansa só de pensar).

Queria começar nossa prosa cafeínica de hoje com um poeta argentino chamado José Hernández que num poema intitulado O gaúcho Martín Fierro dizia que “O tempo é a tardança daquilo que se espera”. Num mundo que pede pressa, a Coca-Cola – acreditem se quiser – quer me dar lição de calma na propaganda de suco em caixinha. Juro que achei graça quando vi. Abra a caixinha, não vendemos um produto, mas “qualidade de vida”. Definitivamente, acabo achando que a vida é movimentada pela pressa e velocidade. Vivemos uma vida marcada pela avidez de estar presente em tudo que é possível. No nosso mundo, é uma empreitada praticamente impossível estar presente em um lugar e não estar em outros ao mesmo tempo. Nossa interioridade, felizmente, não obedece as leis da física e voa pra onde quer, ou precisa estar.

Costumamos num tom saudosista, como nostalgia dos nossos delírios de mundo – se formos honestos… nada era tão bom assim – que existem apenas na nossa imaginação. É preciso admitir que as nossas representações de mundo mudam, nossos modos de enxergá-lo mudam. E pela teoria de que “o jardim do outro é muito mais bonito que o meu”, continuamos a ouvir, e a muitas vezes professar, que em tempos longínquos a vida era melhor vivida, que hoje em dia somos uma geração que vive como se não tivesse passado algum, somos incapazes de tornar viva memórias de nossas origens, que recusamos tradições. Também somos acusados de falta de freio, gente que mal conseguem levar à sério a si mesmo e as reais demandas da própria subjetividade, o que faria de nós uma geração sem futuro. Isso nos coloca no cerne de uma demanda pós-moderna: Sem passado e sem futuro, empenhamos tudo no agora.

Passei alguns dias digerindo a expressão: CARPE DIEM! Essa que enfeita alguns corpos com tatuagens em tipografia caligráfica. Como se essas inscrições, sacramentassem a nossa presença, ou pelo menos o nosso desejo coletivo de não passar pelo mundo como uma geração irrelevante. A presença é a categoria que nos atualiza na realidade, que nos envolve nela de maneira concreta. É na presença que a vida ganha significados, onde se constrói sentido. Só nos fazemos presentes naquilo que para nós rompe a vitrine e toca nossa realidade, aquilo que encontramos na vida. Caso contrário, temos uma presença opaca, com autenticidades refinadas, higienizadas do que há de mais viceral e verdadeiro em nós.

Diante dessa avidez de tomar o mundo num gole só, cabem alguns questionamentos importantes: Onde está o ponto que me une ao todo? Onde está aquilo que não faz da minha existência uma série de acontecimentos sem sentido, sem conexão entre si? Querer o instante de maneira intensa e completa não significa, sobretudo, abraçar a conexão dele com o todo? Caso o contrário, não vivemos apenas um recorte de realidade? Há a possibilidade dos recortes serem o todo em algo? Viver, é aceitar o desafio de procurar o fio que me une ao todo. O destino que eu espero, propõe o mapa de como eu vivo o agora, faz com que a “u-topia (não lugar)” se torne “topia (lugar)”, talvez assim eu entenda melhor o tempo como tardança daquilo que se espera, como aquilo que vai adiando, adiando, adiando… mas atualiza a presença na expectativa.
Não há tempo presente que não seja o resultado de um passado e nem um preparo para um futuro. Acho que a expressão “carpe diem” (“colha o dia”, segundo o poeta Ruben Alves) é muito mal interpretada quando reduzida à perspectiva do recorte. É um modo de alienação, de anulação da liberdade, pois, priva a pessoa de uma dimensão estruturante de sua personalidade: da relação com o seu próprio destino, com sua própria finalidade e possibilidade de realização.
Talvez por isso que “curtir” o instante de modo inconseqüente é algo que dá um estranhamento ao ser humano, claro, se ele for honesto com suas demandas subjetivas.  Negar a raiz do passado e o impulso para o futuro, é negar-lhe sua relação com a realidade, é roubar-lhe a responsabilidade que só ele tem de construir a própria história. E o homem pode suportar muito sofrimento, mas nunca ser algo que não é.

O processo de ser pessoa, esse jeito bonito que Deus nos deu para empenharmos nossa felicidade é sempre um “já” presente no tempo, mas é também prospecção, é impulso para o futuro. Um “devir”que me abre o horizonte de carregar nos braços aquilo que fui e que sou, para através do instante, do presente que foi preparado com o que passou, congregar minha história ao que ela deve se tornar. Parafraseando o profeta Jeremias: Somente o que é assumido pode ser redimido.

02 de junho de 2011

Por Danillo Holzmann

“Empatia” é (quase) amor?

Olá pessoas, 

A capacidade de colocar-se no lugar do outro sempre foi compreendida como uma virtude nobre, como algo constitutivo do que significa ser humano. C. Rogers, o criador da chamada Abordagem Centrada na Pessoa, que extrapola os muros da psicologia e influencia os modos de agir de inúmeras áreas do conhecimento, propõe um conceito interessante que vale a pena refletirmos: o conceito de Empatia! No café de hoje, a presença e a citação do grande Carl Rogers (que também era teólogo… sintoma de otimismo..rsrsr):

“A maneira de ser em relação a outra pessoa denominada empática tem várias facetas. Significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente à vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nesta pessoa em relação aos significados que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao que quer que ele/ela esteja vivenciando. Significa viver temporariamente sua vida, mover-se delicadamente dentro dela sem julgar, perceber os significados que ele/ela quase não percebe, tudo isto sem tentar revelar sentimentos dos quais a pessoa não tem consciência, pois isto poderia ser muito ameaçador. Implica em transmitir a maneira como você sente o mundo dele/dela à medida que examina sem viés e sem medo os aspectos que a pessoa teme. Significa frequentemente avaliar com ele/ela a precisão do que sentimos e nos guiarmos pelas respostas obtidas. Passamos a ser um companheiro confiante dessa pessoa pessoa em seu mundo interior. Mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivênciais, ajudamos a pessoa a focalizar esta modalidade útil de ponto de referência, a vivenciar os significados de forma mais plena e a progredir nesta vivência.
Estar com o outro desta maneira significa deixar de lado, neste momento, nossos próprios pontos de vista e valores, para entrar no mundo do outro sem preconceitos.” (C. Rogers, no livro A pessoa como centro)

 
 

Vi esse vídeo como atualização no facebook de uma amiga queridíssima (Beta, grata surpresa numa sexta-feira santa, ver isso no seu perfil) e essa frase não saiu da minha cabeça… Empatia é (quase) amor?

Talvez uma postura um pouco mais empática seria um grande passo pra um mundo diferente… que corresponda mais ao nosso coração, ou, parafraseando o título de uma obra de Nitzsche,  um mundo mais “Humano,  demasiado humano”.

Hoje, é um dia em que os cristãos celebram a empatia do Sagrado com as nossas misérias e nossos medos, todos eles, o maior de todos eles: a morte. Esse momento inevitável em que o humano se percebe nu, só,  frágil, efêmero, finito, é “re-significado”: não estamos sós… E se a tradição cristã é capaz de afirmar uma verdade de que Deus experimenta a morte por empatia para com o ser humano, para dizer-lhe que ele não está só, temos algo a aprender com isso: nunca se está só enquanto houver potencialidade empática no ser humano, até mesmo na morte quando morremos um pouco com cada um que se vai, a realidade nos afeta, nos move.  E essa capacidade de mover-se por causa de um outro, atualiza o sagrado em nós…

atualiza o humano em nós…

atualiza o “ser gente” em nós

Empatia é (quase) amor!

 
 Por Danillo Holzmann

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/04/01/%C2%A0%C2%A0%C2%A0oracao-de-nietzscheao-deus-desconhecido/

Café com Biscoitos: Canção: Deus (Luíz Caldas)

Salve pessoas,
Fiquei encantado com a qualidade musical desse artista…abram o olho galera
Não é fácil achar gente desse calibre: Sensibilidade musical ímpar, que letra, que melodia e que execução…o cara é muito fera… curtam o som…e tomem esse belo expresso com o Sagrado.
Grande Abraço a Todos
Danillo Holzmann

Informes: Café com Biscoitos: Nova série e mais um colaborador

Café com Biscoitos

Salve Pessoas

A partir da semana que vem teremos mais um colaborador para o nosso blog (pois é, mais alguém pra fazer o café)  e uma nova série dessa vez com o tema sobre o Senso Religioso,

“No coração do ser humano existem perguntas que estão ligadas à raiz de todo o nosso agir, que são capazes de movimentar toda a nossa existência. Elas se expressam em questões como: “Porque vale a pena viver? Qual o significado último da realidade? Qual o verdadeiro sentido da existência?” Quando essas perguntas vêm à tona, quando elas se tornam conscientes e aparecem em nossa vida de maneira mais clara, chamamos essa realidade de senso religioso.”

Esse será o tema de nossa próxima série… Espero que curtam

Grande Abraço a todos

Danillo Holzmann

Café com Biscoitos: Escravos do porvir

Salve Galera,

Deixo pra vocês hoje uma canção de uma Banda chamada Fruto Sagrado. A canção é: ESCRAVOS DO PORVIR… café com biscoitos para refletir… ano novo, vida nova…. que a novidade faça parte do nosso coração de modo permanente e não “amarele” com o passar dos anos…

Olha quanta ansiedade
Escravos do porvir
Escravos do prazer
De se preocupar
Não sabemos descansar

Toda nossa pretensão
Do futuro controlar
Nos traz a obsessão
De saber o que virá
Nos privando do melhor
Pensamos tanto no amanhã
Mas não sabemos
Que Ele virá e nos levará
Como viemos
Pensamos tanto no amanhã…
Pobre e nu, sem mala pra arrumar
Nu, sem roupa pra usar
Nu, sem carro pra andar
Nu, de volta ao pó

Pensamos tanto no amanhã
Mas não sabemos
Que Ele virá e nos levará
Como viemos
Pensamos tanto no amanhã
Pois não sabemos
Como viemos, como viemos
Pobre e nu, sem mala pra arrumar
Nu, sem roupa pra usar
Nu, sem carro pra andar
Nu…

Teologia é coisa de Gente!!

“Teologia é um jeito de falar sobre o corpo.

O corpo dos sacrificados.

São os corpos que pronunciam o nome sagrado:

Deus…

A teologia é um poema do corpo,

O corpo orando,

O corpo dizendo as suas esperanças,

Falando sobre o seu medo de morrer,

Sua ânsia de imortalidade,

Apontando para utopias,

Espadas transformadas em arados,

Lanças fundidas em podadeiras…

Por meio dessa fala

Os corpos se dão as mãos,

Se fundem num abraço de amor,

E se sustentam para resistir e para caminhar.”

Rubem Alves (1981)