Arquivo do mês: junho 2011

CARPE DIEM: Sobre as pressas e as inteirezas

Depois de um período sem postagens e com o tempo escasso por conta de uma nova graduação no período da noite, vejo minha vida ficar corrida e cheia de tantas pressas imerecidas (Embora com colegas e companhias maravilhosas, cansa só de pensar).

Queria começar nossa prosa cafeínica de hoje com um poeta argentino chamado José Hernández que num poema intitulado O gaúcho Martín Fierro dizia que “O tempo é a tardança daquilo que se espera”. Num mundo que pede pressa, a Coca-Cola – acreditem se quiser – quer me dar lição de calma na propaganda de suco em caixinha. Juro que achei graça quando vi. Abra a caixinha, não vendemos um produto, mas “qualidade de vida”. Definitivamente, acabo achando que a vida é movimentada pela pressa e velocidade. Vivemos uma vida marcada pela avidez de estar presente em tudo que é possível. No nosso mundo, é uma empreitada praticamente impossível estar presente em um lugar e não estar em outros ao mesmo tempo. Nossa interioridade, felizmente, não obedece as leis da física e voa pra onde quer, ou precisa estar.

Costumamos num tom saudosista, como nostalgia dos nossos delírios de mundo – se formos honestos… nada era tão bom assim – que existem apenas na nossa imaginação. É preciso admitir que as nossas representações de mundo mudam, nossos modos de enxergá-lo mudam. E pela teoria de que “o jardim do outro é muito mais bonito que o meu”, continuamos a ouvir, e a muitas vezes professar, que em tempos longínquos a vida era melhor vivida, que hoje em dia somos uma geração que vive como se não tivesse passado algum, somos incapazes de tornar viva memórias de nossas origens, que recusamos tradições. Também somos acusados de falta de freio, gente que mal conseguem levar à sério a si mesmo e as reais demandas da própria subjetividade, o que faria de nós uma geração sem futuro. Isso nos coloca no cerne de uma demanda pós-moderna: Sem passado e sem futuro, empenhamos tudo no agora.

Passei alguns dias digerindo a expressão: CARPE DIEM! Essa que enfeita alguns corpos com tatuagens em tipografia caligráfica. Como se essas inscrições, sacramentassem a nossa presença, ou pelo menos o nosso desejo coletivo de não passar pelo mundo como uma geração irrelevante. A presença é a categoria que nos atualiza na realidade, que nos envolve nela de maneira concreta. É na presença que a vida ganha significados, onde se constrói sentido. Só nos fazemos presentes naquilo que para nós rompe a vitrine e toca nossa realidade, aquilo que encontramos na vida. Caso contrário, temos uma presença opaca, com autenticidades refinadas, higienizadas do que há de mais viceral e verdadeiro em nós.

Diante dessa avidez de tomar o mundo num gole só, cabem alguns questionamentos importantes: Onde está o ponto que me une ao todo? Onde está aquilo que não faz da minha existência uma série de acontecimentos sem sentido, sem conexão entre si? Querer o instante de maneira intensa e completa não significa, sobretudo, abraçar a conexão dele com o todo? Caso o contrário, não vivemos apenas um recorte de realidade? Há a possibilidade dos recortes serem o todo em algo? Viver, é aceitar o desafio de procurar o fio que me une ao todo. O destino que eu espero, propõe o mapa de como eu vivo o agora, faz com que a “u-topia (não lugar)” se torne “topia (lugar)”, talvez assim eu entenda melhor o tempo como tardança daquilo que se espera, como aquilo que vai adiando, adiando, adiando… mas atualiza a presença na expectativa.
Não há tempo presente que não seja o resultado de um passado e nem um preparo para um futuro. Acho que a expressão “carpe diem” (“colha o dia”, segundo o poeta Ruben Alves) é muito mal interpretada quando reduzida à perspectiva do recorte. É um modo de alienação, de anulação da liberdade, pois, priva a pessoa de uma dimensão estruturante de sua personalidade: da relação com o seu próprio destino, com sua própria finalidade e possibilidade de realização.
Talvez por isso que “curtir” o instante de modo inconseqüente é algo que dá um estranhamento ao ser humano, claro, se ele for honesto com suas demandas subjetivas.  Negar a raiz do passado e o impulso para o futuro, é negar-lhe sua relação com a realidade, é roubar-lhe a responsabilidade que só ele tem de construir a própria história. E o homem pode suportar muito sofrimento, mas nunca ser algo que não é.

O processo de ser pessoa, esse jeito bonito que Deus nos deu para empenharmos nossa felicidade é sempre um “já” presente no tempo, mas é também prospecção, é impulso para o futuro. Um “devir”que me abre o horizonte de carregar nos braços aquilo que fui e que sou, para através do instante, do presente que foi preparado com o que passou, congregar minha história ao que ela deve se tornar. Parafraseando o profeta Jeremias: Somente o que é assumido pode ser redimido.

02 de junho de 2011

Por Danillo Holzmann