Coragem de ser: Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

É curioso o jeito que às vezes usamos para descrever as pessoas resumindo-as ao que fazem. Usamos os atos humanos como possibilidade de definições.
Não que não haja relação entre o que se é e o que se faz. Nós não somos gavetas e essa proposta dualista,  a qual somos sempre inclinados a adotar, não resiste a realidade: o ser humano existe concretamente como uma unidade de realidades por vezes conflitantes, mas em unidade. Quero convidar para tomar um”menorzinho” – como dizemos na Bahia –  o filósofo mineiro Juvenal Arduini que nos diz em sua obra Destinação Antropológica:O homem é a realidade mais profunda e mais complexa que conhecemos no âmbito do universo natural. Por isso oferece visualizações diversas sobre a mesma totalidade (…) Há que se evitar o reducionismo antropológico que concentra a visão sobre determinada dimensão humana como se fosse a realidade toda (…) O homem só será suficientemente compreendido se as diversas dimensões antropológicas forem vistas com espírito conjuntivo.(…) A dimensão, por natureza, qualifica e expressa o ser todo do homem, em determinada perspectiva”. O nosso AGIR/FAZER doa um pouco de nós ao mundo.

Talvez encontremos aí um jeito diferente de pensar o nosso AGIR/FAZER no mundo e sobretudo o nosso trabalho: como um modo de expressar o que nós somos, um modo de “ser no mundo”, de interferir na realidade, de atualizar o “possível” na existência.
Na narrativa mítica da Criação encontrada nos primeiros capítulos do  livro do Gênesis, Deus não cria o mundo perfeito como Ele mesmo é… se assim o fosse, o mundo jamais poderia ser mundo, seria apenas uma extensão de Deus. No ato criador, algo de  realmente novo acontece, uma verdadeira criação. O mundo não é  criado perfeito, mas “por –ser- feito”, e é justamente nesse contexto que podemos pensar o significado de dignidade do trabalho humano. O homem não apenas age para conservar o mundo, ou para recebê-lo como seu passivo beneficiário . Mas está para ele como um cooperador ativo do Criador no esforço de tornar sólida uma harmonia que ainda se encontra latente na criação. Levar o mundo em seus braços até a sua fonte e origem. No germe de todo trabalho autenticamente humano está neste movimento: Trazer à superfície a harmonia latente e possível do mundo. Atualização de um devir cósmico. Nesse constante processo de feitura,  a pessoa é também chamada a exercer sua criatividade, passando pela experiência do fazer-se: Requer trabalho e criatividade.

Entendendo isso nas relações humanas, duas realidades são típicas do amor: a capacidade de empenhar-se (trabalho) e de criar “mecanismos” próprios para nutrir-se (criatividade). Todo esse esforço e empenho nos direcionam à simplicidade. Estranhamente, diferente do mundo criado, para o ser humano, a simplicidade é uma conquista. Ela não vem pronta, é sempre o resultado de um processo pessoal.
Simplicidade é quando empenhamos força apenas para ser aquilo que somos;
Mesmo se achamos que não é grande coisa.  O terreno onde a simplicidade acontece é quando a nossa capacidade de acolhimento é primeiramente vivenciada com a nossa própria subjetividade. Quem não aprendeu a conjugar o EU, dificilmente saberá conjugá-lo com o TU ou com o NÓS.  E assim assumir a responsabilidade que lhe cabe de crescer e amadurecer no processo pessoal e interpessoal.
Nesse processo de “dispor de si” devemos ter o cuidado para não nos inventarmos, correndo assim o risco de nos imaginar e não de descobrir-nos. Descoberta e invenção são duas coisas distintas.
Inventar-se, nesse contexto, é um jeito de se imaginar na vida, de produzir uma imagem de si que resume as pessoas com quem nos relacionamos a meros espectadores, em que ninguém nos encontra de fato, apenas se enroscam na nossa representação… resultado: deixamos de viver a vida. Colamos uma máscara no rosto e nos descuidamos do que somos…como na triste poesia de Álvaro de Campos:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.”

Desse modo não há mais espaço para a criatividade, pois, não existe um sujeito concreto que a opere. São fantasmas, e fantasmas não interferem de verdade no mundo, apenas aterrorizam nossa imaginação, enfeitam ou sujam cenários irreais de nossos  devaneios.
É preciso realidade! É preciso verdade! Aceitar e acolher quem somos.
Aceitar o nossa limitação também faz parte da dinâmica da simplicidade.
Onde não há limite, não há espaço pra crescer nem pra amadurecer.
Esse espaço é a verdade sobre nós. Autenticidade não é para fracos e medrosos.
Mas para quem tem coragem de estender a mão e tomar nos braços a verdade que lhe cabe. E também levá-la nos braços para a sua origem. Como o homem faz com o mundo. O homem é um eterno carregador de sua verdade e da verdade do mundo. Embalando e ninando nos seus braços o real e a sua história.
Num mundo de inventores e inventados… Ter a coragem de SER.

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7 Respostas para “Coragem de ser: Inventados e Inventores

  1. Amei, em especial, esse texto! De fato, ser quem somos parece uma tarefa difícil, pois, as vezes nos deixamos moldar por formas “convencionais” da sociedade. Gosto muito de uma música de Suely Façanha quando ela diz” Quanto mais busco o Teu rosto, mais e mais conheço o meu”
    Em Deus, somos capazes de nos descobrir. Essa é uma das belezas de contemplar um Deus que nos ama e nos acolhe como somos.

    Um abração.

    • Olá Querida amiga
      Que Deus seja o nosso guia na descoberta de nossa própria identidade…
      Santo Agostinho fala do “Mestre interior”… acho boa a metáfora…alguém dentro de nós nos apresenta a nós mesmos… Deus é assim…quer que sejamos felizes com os recursos que nós podemos dispor de nossa própria identidade… viver é dom e graça dele…acolhamos com alegria o presente. Fica com nosso bom Deus cara amiga.
      Bjo no seu coração

  2. Parabéns , gostei do café ,muito bom rsrsr e descobrir também um bom escritor vai em frente . Sobre o texto claro e objetivo .E confirmando que devemos viver simplicidade o essencial do nosso ser sem ter muita “serie” rsrsr ser unicos .
    Thau , até breve.

  3. Nadir Oliveira G. L. Almeida

    Olá, Danilo, grande pensador e escritor!
    Estou gostando muito do Café, expresso e espresso (como os italianos gostam também). Aliás, você citou um cara com quem gostaria mesmo de dividir a mesa, o Arduini, do qual li a obra “Antropologia – ousar para reinventar a humanidade”. Ele fala, neste livro também sobre como o ser humano precisa manter a perspectiva da “mistura” da “dialética” do ser. Um não ao dualismo tão corrente na lógica da produção em série… Nas palavras do autor, ” o ser humano é dialética antropológica explosiva”.
    Beleza!
    Agradeço a Deus quando vejo pessoas como você, que tem o que dizer e dizem! Um brinde!
    Abraço,
    Nadir

    • Olá querida Nadir,
      o propósito do blog é juntar encontros queridos, tenho tb esse outro livro de Pe. Juvenal Arduini… o cara é simplesmente fantástico… tenho certeza que esse não será o primeiro cafezinho que tomaremos com ele nesse espaço virtual. Faremos uma bela troca do dualismo para a dialética (mas a dialética não supõe um dualismo? Só não pode misturar-se coisas separadas?rsrsrs)…eis o defafio…o homem é maior! é maior e é maior!! A teologia o chama de mistério: não se pode esgotar , embora possamos conhecer muito (nunca tudo), mas sempre em contato direto e subjetivo (não é um objeto).
      Obrigado pela sua queridíssima e inspiradora visita.
      Venha sempre tomar café conosco.
      Bjus pra vc querida

  4. Danillo,
    já adicionei O Café ao meu favoritos, assim sempre que tiver um tempinho passo pra provar um. ok?!
    Um abração,
    Beta

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