“Re-comece”: O amor é uma Surpresa

O amor é uma surpresaSobre criatividade de nutir as relações humanas

Acho engraçado o jeito como escolhemos as palavras para iniciar um diálogo com alguém. Acentuamos nossas qualidades, atenuamos nossos limites, vamos nos mostrando aos poucos, um passo de cada vez…  Assim é o processo natural de tudo que é grandioso na vida: precisa ser olhado sem pressa. Com o cuidado de quem contempla um dom. Daí, escolhemos o melhor que temos em nós mesmos para oferecer ao outro.
A alguns meses atrás,  fiz uma amizade bastante significativa através de um meio de comunicação bem criticado para tais fins e diria até considerado improvável para isso: afinal, quem consegue fazer uma amizade verdadeira pelo msn ? Bom, eu fiz.

Percebi o quanto no início de tudo eu ficava preocupado em escolher bem as palavras, para não ter ambigüidades em relação ao que eu queria dizer, não quis deixar a oportunidade de verdadeiramente encurtar as distâncias, derrubar muros e construir pontes… creio que um “bon vivant” é medido pelos muros que derrubou e pelas pontes que construiu.
Nossas relações, essas benditas pontes que construímos na vida, gozam de uma grande responsabilidade na construção do que somos: Elas são peças importantes, fundamentais, para o desenvolvimento de nossa subjetividade. Gosto de um filósofo judeu chamado Martin Buber que fazia uma colocação interessantíssima para nossa prosa de hoje. Ao dizer a palavra EU essa nunca vem sozinha, ela supõe duas realidas inauguradas a partir da subjetividade afirmada. Porque o EU é relação, dizia ele. Para Buber, duas são essas realidades que interagem de modo concomitante a afirmação do EU: o TU e o ISSO. O EU, é relação com uma outra subjetividade diferente de si: um TU, ou com um objeto: um ISSO.
Talvez umas das experiências mais emblemáticas da relação EU-TU que reconheço no cotidiano é a experiência do “re-começo”. Compreendo o “re-começo” não como o ato de ignorar o passado, ou como voltar ao ponto inicial de alguma circunstância,como “voltar do zero”… O “re-começo” é como uma força criativa capaz de nutrir essas relações, de atualizar o mistério do outro e assim dirigir-se a ele em estado de inaguração. Reconhecer o outro como mistério, não quer dizer que ele não possa ser conhecido, mas, que não pode nunca ser esgotado e aí está a fonte do “re-começo”: adquirir olhos capazes de inaugurar, porque a grandiosidade do outro se põe diante de nós como mistério que se abre a ser conhecido, mas nunca esgotado.
Gosto de pensar o “re-começo” também como a evocação de um dado tempo na vida em que escolhemos o melhor de nós para doar ao outro. Toda experiência de “re-começo” que fazemos na vida é também um jeito de voltar à origem do movimento em direção ao outro.
Tive um final de ano tenso e difícil, marcado por inseguranças, desencontros e solidões, dificuldades e dissabores… final de ano pesado! Como quem sente nas mãos o peso das próprias escolhas. Não existem escolhas sem perdas e ganhos. Todas elas, carregam dentro de si esses dois contrários irreconciliáveis: uma criatividade que a vida encontra para fazer um caminho ser único e irrepetível.
Dentro das fontes do “re-começo” estão guardadas verdades que podem ter perdido o valor dentro de nós, e que apenas esse movimento, pode nos livrar das páginas amareladas e com marcas de traça da nossa existência : a descoberta do novo no óbvio.

O “re-começo” é necessário, sobretudo em nossas relações, porque garante a capacidade de surpresa, e tudo aquilo que não é capaz de nos surpreender, perde o valor para nós. Para entendermos bem o que significa essa surpresa é necessário uma disposição interior para acolher o mistério do outro.
Triste é ver amores que não surpreendem mais. Mas não aquela surpresa que quer o novo pelo novo. Uma busca ávida por um estado de “adrenalina”. Como se viver fosse como praticar esportes radicais ou como se a vida funcionasse dentro dessa mesma lógica: É preciso ter emoção! Não é preciso haver amor pra ser ter “emoções fortes”. 

Resumir o amor a um eterno estado de paixão só nos ajuda a ficar cada vez mais presos a um estado imaginativo: Encontramos com o outro de maneira “artística”,  na perspectiva daquilo que eu projeto ou imagino: Não nos iludamos… Isso não é encontro. Seremos inebriados por uma evasão estética. Por outro lado essa etapa é importante, pois, talvez não suportaríamos encontrar de verdade o outro se este, antes, não despertasse em nós um encantamento, não nos atraísse para uma comunhão. Seríamos vítima do olhar apressado.

O amor é tempestivo, quer despertar cada coisa ao seu tempo segundo a intimidade que é alimentada e empenhada, pois, tem como finalidade acolher a totalidade do outro. O “re-começo” entra aí, não como uma volta a um tempo de paixão que não existe mais, mas como uma espaço para o cultivo que nasce de uma certeza: Todo ser humano é único e irrepetível, assim como é singular o seu caminho, e por isso mesmo é um mistério que nunca pode ser esgotado. Portanto, é sempre capaz de nos surpreender, assim, como tudo que é verdadeiramente bom e grandioso na vida. Amar alguém é um empreendimento de uma vida inteira. É um dom maravilhoso que se desdobra numa tarefa: através do cultivo e do “re-começo” alimentar e nutrir o caminho da intimidade.

Seja criativo, “re-comece”!

Por Danillo Holzmann

Anúncios

5 Respostas para ““Re-comece”: O amor é uma Surpresa

  1. Meu amor, muito bom seu texto! Suas palavras são uma ótima fonte de enriquecimento para cada um de nós. Que possamos olhar o outro “sem pressa”, e que aprendamos a nos relacionar com as pessoas de maneira autêntica e verdadeira.
    Fico com o finalzinho do seu texto…
    “Amar alguém é um empreendimento de uma vida inteira. É um dom maravilhoso que se desdobra numa tarefa: através do cultivo e do “re-começo” alimentar e nutrir o caminho da intimidade.”
    Te amo!
    Sua Pequena

  2. Oi Danilo,
    Deveríamos estar sempre recomeçando… É verdade. percebo também que, quando eu decido recomeçar, seja em qual for a circunstância, não só trago benefícios próprios, mas também, melhoro as relações interpessoais.
    Lendo seu texto me lembrei da música de Adriana ” Quando o sol nascer, nova manhã, mais perto o horizonte você vai ver. Nada será como antes…
    Que o Senhor que faz novas todas as coisas, todos os dias, nos ajude e nos inspire essa criatividade do recomeço.
    Um abração!

    Saiba Marçal

    • “Recomeçar, dar um novo sentido à vida!”
      Cara amiga, talvez não exista coisa mais cara ao cristianinsmo que a possibilidade do recomeço.
      Deus não nos une como pessoas irrepreensíveis, mas como humanos capazes de recomeçar à partir da sua graça…
      Basta que tenhamos coragem de estender o braço e ter a abertura de deixar o seu agir em nós.
      Nossa capacidade de recomeço é diretamente proporcional a qualidade de espaço que dou Àquele que faz nova todas as coisas.
      Que seja nossa inspiração
      Um grande Abraço e obrigado pela visita

  3. Olá Danilo,

    Parabens pelo site e mais ainda pelo belo texto !
    Adorei !!!
    Vc tem mais textos? Pois em imprimir e disponibilizar para leitura lá no Espaço Psi Bahia. O que vc acha? Seria como gotas de reflexâo …

    Cordialmente,
    Gabriela
    Espaço Psi Bahia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s