Arquivo do mês: janeiro 2011

Coragem de ser: Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

É curioso o jeito que às vezes usamos para descrever as pessoas resumindo-as ao que fazem. Usamos os atos humanos como possibilidade de definições.
Não que não haja relação entre o que se é e o que se faz. Nós não somos gavetas e essa proposta dualista,  a qual somos sempre inclinados a adotar, não resiste a realidade: o ser humano existe concretamente como uma unidade de realidades por vezes conflitantes, mas em unidade. Quero convidar para tomar um”menorzinho” – como dizemos na Bahia –  o filósofo mineiro Juvenal Arduini que nos diz em sua obra Destinação Antropológica:O homem é a realidade mais profunda e mais complexa que conhecemos no âmbito do universo natural. Por isso oferece visualizações diversas sobre a mesma totalidade (…) Há que se evitar o reducionismo antropológico que concentra a visão sobre determinada dimensão humana como se fosse a realidade toda (…) O homem só será suficientemente compreendido se as diversas dimensões antropológicas forem vistas com espírito conjuntivo.(…) A dimensão, por natureza, qualifica e expressa o ser todo do homem, em determinada perspectiva”. O nosso AGIR/FAZER doa um pouco de nós ao mundo.

Talvez encontremos aí um jeito diferente de pensar o nosso AGIR/FAZER no mundo e sobretudo o nosso trabalho: como um modo de expressar o que nós somos, um modo de “ser no mundo”, de interferir na realidade, de atualizar o “possível” na existência.
Na narrativa mítica da Criação encontrada nos primeiros capítulos do  livro do Gênesis, Deus não cria o mundo perfeito como Ele mesmo é… se assim o fosse, o mundo jamais poderia ser mundo, seria apenas uma extensão de Deus. No ato criador, algo de  realmente novo acontece, uma verdadeira criação. O mundo não é  criado perfeito, mas “por –ser- feito”, e é justamente nesse contexto que podemos pensar o significado de dignidade do trabalho humano. O homem não apenas age para conservar o mundo, ou para recebê-lo como seu passivo beneficiário . Mas está para ele como um cooperador ativo do Criador no esforço de tornar sólida uma harmonia que ainda se encontra latente na criação. Levar o mundo em seus braços até a sua fonte e origem. No germe de todo trabalho autenticamente humano está neste movimento: Trazer à superfície a harmonia latente e possível do mundo. Atualização de um devir cósmico. Nesse constante processo de feitura,  a pessoa é também chamada a exercer sua criatividade, passando pela experiência do fazer-se: Requer trabalho e criatividade.

Entendendo isso nas relações humanas, duas realidades são típicas do amor: a capacidade de empenhar-se (trabalho) e de criar “mecanismos” próprios para nutrir-se (criatividade). Todo esse esforço e empenho nos direcionam à simplicidade. Estranhamente, diferente do mundo criado, para o ser humano, a simplicidade é uma conquista. Ela não vem pronta, é sempre o resultado de um processo pessoal.
Simplicidade é quando empenhamos força apenas para ser aquilo que somos;
Mesmo se achamos que não é grande coisa.  O terreno onde a simplicidade acontece é quando a nossa capacidade de acolhimento é primeiramente vivenciada com a nossa própria subjetividade. Quem não aprendeu a conjugar o EU, dificilmente saberá conjugá-lo com o TU ou com o NÓS.  E assim assumir a responsabilidade que lhe cabe de crescer e amadurecer no processo pessoal e interpessoal.
Nesse processo de “dispor de si” devemos ter o cuidado para não nos inventarmos, correndo assim o risco de nos imaginar e não de descobrir-nos. Descoberta e invenção são duas coisas distintas.
Inventar-se, nesse contexto, é um jeito de se imaginar na vida, de produzir uma imagem de si que resume as pessoas com quem nos relacionamos a meros espectadores, em que ninguém nos encontra de fato, apenas se enroscam na nossa representação… resultado: deixamos de viver a vida. Colamos uma máscara no rosto e nos descuidamos do que somos…como na triste poesia de Álvaro de Campos:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.”

Desse modo não há mais espaço para a criatividade, pois, não existe um sujeito concreto que a opere. São fantasmas, e fantasmas não interferem de verdade no mundo, apenas aterrorizam nossa imaginação, enfeitam ou sujam cenários irreais de nossos  devaneios.
É preciso realidade! É preciso verdade! Aceitar e acolher quem somos.
Aceitar o nossa limitação também faz parte da dinâmica da simplicidade.
Onde não há limite, não há espaço pra crescer nem pra amadurecer.
Esse espaço é a verdade sobre nós. Autenticidade não é para fracos e medrosos.
Mas para quem tem coragem de estender a mão e tomar nos braços a verdade que lhe cabe. E também levá-la nos braços para a sua origem. Como o homem faz com o mundo. O homem é um eterno carregador de sua verdade e da verdade do mundo. Embalando e ninando nos seus braços o real e a sua história.
Num mundo de inventores e inventados… Ter a coragem de SER.

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Encontros:Intimidade e Experiência Estética

Dizer o que somos é também falar dos encontros que fomos capazes de promover ao longo de nossa existência mas também dos desencontros que fomos capazes de provocar (ou sofrer)… a matéria prima onde é plasmada a nossa identidade é feita de encontros e despedidas (como na canção de Milton Nascimento) .
Essa semana refletia na possibilidade de que todo o encontro é como que uma experiência estética… hum… vamos chamar logo alguém pra nos ajudar nesse café….Café expresso… e quem nos ajudará na “alquimia cafeínica” de hoje é o Filósofo e Teólogo Suíço Urs von Balthasar (1905)…ele escreve uma obra chamada Uma Estética teológica, em que faz uma leitura da Revelação cristã em termos estéticos, porém o que vai nos interessar para a nossa prosa de hoje é a idéia de que, inserir o elemento estético como chave da experiência do encontro,  não debilita nem minimiza o objeto a uma realidade evasiva e abstrata (no caso de von Balthasar, a Revelação Cristã), mas antes,  pode abrir para acolher o fenômeno, mesmo que esse se apresente de modo limitado e incompleto,  em toda a sua complexidade. Explico melhor – eu espero mesmo explicar melhor…rsrsrs – , sem a experiência estética, não é possível nenhum conhecimento verdadeiro e autêntico, pois embora possamos enquadrar as realidades em categorias de verdade e justeza como também julgar a sua relevância para o nosso bem estar,  sem a ATRAÇÃO (ferramenta estética)  elas não teriam força de personalização, de quebrar a vitrine e sair da condição de algo que observamos sem um envolvimento, para se tornar ENCONTRO. Convido a senta-se à mesa pra o nosso café, a também genial Adélia Prado: “Não quero a faca nem o queijo, quero a fome!” A unica coisa que é nossa nos encontros que estabelecemos na vida, não é o objeto desejado, mas a fome, o desejo. Essa é a porta que nos é aberta como possibilidade de encontros autênticos. O outro tem algo que em mim falta, é “devir” e possibilidade (ENCONTRO) ou outro trouxe algo que em mim sobra, é excesso e ocupa o um lugar que não lhe pertence (DESPEDIDAS).

Viver é saber-se portador de uma beleza a ser desvendada para aquele que tem paciência e descobriu o valor da espera. Que compreende o valor e a importância dos processos. Acolher essa realidade que nos enriquece do outro e o outro de nós, é um jeito muito bonito (estética de novo..rsrsrs) de ser gente. Precisa tempo, precisa trabalho, empenho, pois encontrar os outros de verdade não é fácil e acreditem, tem muita gente se esbarrando por aí. Pós-modernidade do “esbarrão”… Falsos encontros não enriquecem realidades, não criam espaços comuns de autenticidade, são donos de uma beleza efêmera e não são capazes de ver além do parcial e fragmentado. E por isso mesmo: Pós modernidade da Performance!

Matamos as potencialidades pessoais desse ser nascido para o encontro e a intimidade e que se nutre justamente da qualidade dos encontros que faz.
Por que se formos honestos, não conseguimos dizer com clareza quem somos,
deixando de fora aquilo que fomos capazes de congregar na nossa intimidade.

A intimidade é o que nasce do encontro verdadeiro, é esse o “espaço” em que congregamos nosso real, nossos desejos e sonhos, nossas esperanças e lutas, nossas histórias e saudades… neste espaço chamado “nós”.

No “nós”, apenas você e eu temos a chave. E na medida que isso cresce vamos tendo menos coisas a colocar nesta casa feita pra acolher a totalidade do outro. De maneira que não é mais possível conjugar o “nós” sem ter na sua perspectiva uma doação total do que se é e um acolhimento total do que o outro é. A intimidade tende naturalmente para a totalidade dos “EUs” empenhados numa trama interpessoal que se chama “NÓS”.

Neste fim de semana passei bons momentos na casa de um casal amigo com pessoas que embora vendo-os sempre, pelas circunstâncias profissionais à muito não os encontrava. Gente que encontrei verdadeiramente na vida. Encontros verdadeiros, muita coisa já congregada, muita vida já partilhada
Tinham o poder de me fazer desejar ser mais eu, me lembravam coisas que
um dia coloquei no espaço da intimidade e como um papel velho lançado
no fundo de uma gaveta eu já havia esquecido.

Há lugares de nossa vida que esquecemos de cuidar por que já nos acostumamos e diminuímos o seu valor como uma luz que esqueci de apagar ontem… achei que tinha feito… me acostumei a apagar luzes sem prestar atenção.
Do mesmo modo acostumamos-nos a nos olhar apressadamente, com olhar de críticos de arte, estética mórbida, astigmática, luzes difusas e dispersas que não encontram ninguém pois pederam a capacidade de foco, só enxergam multidão: despedidas “sem querer … querendo” (como dizia o Chaves da TV) . Mas sendo franco, fico feliz porque na vida existem encontros de verdade. Realidades que nos apontam para o nosso destino o tempo todo. Naquele papel no fundo da gaveta, que mencionei acima, estava escrito: Você não tem o direito de me imaginar.

Por Danillo Holzmann

“Re-comece”: O amor é uma Surpresa

O amor é uma surpresaSobre criatividade de nutir as relações humanas

Acho engraçado o jeito como escolhemos as palavras para iniciar um diálogo com alguém. Acentuamos nossas qualidades, atenuamos nossos limites, vamos nos mostrando aos poucos, um passo de cada vez…  Assim é o processo natural de tudo que é grandioso na vida: precisa ser olhado sem pressa. Com o cuidado de quem contempla um dom. Daí, escolhemos o melhor que temos em nós mesmos para oferecer ao outro.
A alguns meses atrás,  fiz uma amizade bastante significativa através de um meio de comunicação bem criticado para tais fins e diria até considerado improvável para isso: afinal, quem consegue fazer uma amizade verdadeira pelo msn ? Bom, eu fiz.

Percebi o quanto no início de tudo eu ficava preocupado em escolher bem as palavras, para não ter ambigüidades em relação ao que eu queria dizer, não quis deixar a oportunidade de verdadeiramente encurtar as distâncias, derrubar muros e construir pontes… creio que um “bon vivant” é medido pelos muros que derrubou e pelas pontes que construiu.
Nossas relações, essas benditas pontes que construímos na vida, gozam de uma grande responsabilidade na construção do que somos: Elas são peças importantes, fundamentais, para o desenvolvimento de nossa subjetividade. Gosto de um filósofo judeu chamado Martin Buber que fazia uma colocação interessantíssima para nossa prosa de hoje. Ao dizer a palavra EU essa nunca vem sozinha, ela supõe duas realidas inauguradas a partir da subjetividade afirmada. Porque o EU é relação, dizia ele. Para Buber, duas são essas realidades que interagem de modo concomitante a afirmação do EU: o TU e o ISSO. O EU, é relação com uma outra subjetividade diferente de si: um TU, ou com um objeto: um ISSO.
Talvez umas das experiências mais emblemáticas da relação EU-TU que reconheço no cotidiano é a experiência do “re-começo”. Compreendo o “re-começo” não como o ato de ignorar o passado, ou como voltar ao ponto inicial de alguma circunstância,como “voltar do zero”… O “re-começo” é como uma força criativa capaz de nutrir essas relações, de atualizar o mistério do outro e assim dirigir-se a ele em estado de inaguração. Reconhecer o outro como mistério, não quer dizer que ele não possa ser conhecido, mas, que não pode nunca ser esgotado e aí está a fonte do “re-começo”: adquirir olhos capazes de inaugurar, porque a grandiosidade do outro se põe diante de nós como mistério que se abre a ser conhecido, mas nunca esgotado.
Gosto de pensar o “re-começo” também como a evocação de um dado tempo na vida em que escolhemos o melhor de nós para doar ao outro. Toda experiência de “re-começo” que fazemos na vida é também um jeito de voltar à origem do movimento em direção ao outro.
Tive um final de ano tenso e difícil, marcado por inseguranças, desencontros e solidões, dificuldades e dissabores… final de ano pesado! Como quem sente nas mãos o peso das próprias escolhas. Não existem escolhas sem perdas e ganhos. Todas elas, carregam dentro de si esses dois contrários irreconciliáveis: uma criatividade que a vida encontra para fazer um caminho ser único e irrepetível.
Dentro das fontes do “re-começo” estão guardadas verdades que podem ter perdido o valor dentro de nós, e que apenas esse movimento, pode nos livrar das páginas amareladas e com marcas de traça da nossa existência : a descoberta do novo no óbvio.

O “re-começo” é necessário, sobretudo em nossas relações, porque garante a capacidade de surpresa, e tudo aquilo que não é capaz de nos surpreender, perde o valor para nós. Para entendermos bem o que significa essa surpresa é necessário uma disposição interior para acolher o mistério do outro.
Triste é ver amores que não surpreendem mais. Mas não aquela surpresa que quer o novo pelo novo. Uma busca ávida por um estado de “adrenalina”. Como se viver fosse como praticar esportes radicais ou como se a vida funcionasse dentro dessa mesma lógica: É preciso ter emoção! Não é preciso haver amor pra ser ter “emoções fortes”. 

Resumir o amor a um eterno estado de paixão só nos ajuda a ficar cada vez mais presos a um estado imaginativo: Encontramos com o outro de maneira “artística”,  na perspectiva daquilo que eu projeto ou imagino: Não nos iludamos… Isso não é encontro. Seremos inebriados por uma evasão estética. Por outro lado essa etapa é importante, pois, talvez não suportaríamos encontrar de verdade o outro se este, antes, não despertasse em nós um encantamento, não nos atraísse para uma comunhão. Seríamos vítima do olhar apressado.

O amor é tempestivo, quer despertar cada coisa ao seu tempo segundo a intimidade que é alimentada e empenhada, pois, tem como finalidade acolher a totalidade do outro. O “re-começo” entra aí, não como uma volta a um tempo de paixão que não existe mais, mas como uma espaço para o cultivo que nasce de uma certeza: Todo ser humano é único e irrepetível, assim como é singular o seu caminho, e por isso mesmo é um mistério que nunca pode ser esgotado. Portanto, é sempre capaz de nos surpreender, assim, como tudo que é verdadeiramente bom e grandioso na vida. Amar alguém é um empreendimento de uma vida inteira. É um dom maravilhoso que se desdobra numa tarefa: através do cultivo e do “re-começo” alimentar e nutrir o caminho da intimidade.

Seja criativo, “re-comece”!

Por Danillo Holzmann

Café com Biscoitos: Canção: Deus (Luíz Caldas)

Salve pessoas,
Fiquei encantado com a qualidade musical desse artista…abram o olho galera
Não é fácil achar gente desse calibre: Sensibilidade musical ímpar, que letra, que melodia e que execução…o cara é muito fera… curtam o som…e tomem esse belo expresso com o Sagrado.
Grande Abraço a Todos
Danillo Holzmann

Pelos olhos dos outros

O desafio de ser pessoa nos coloca contra a parede a todo instante.
Essa necessidade de tomar a própria vida nas mãos
e dar a ela o rumo que a acalme é realmente empreitada digna de complicar o juízo de qualquer um.
Ter-se nas mãos é necessário, mas não basta.
Corremos o risco de não saber o que fazer com o tamanho do presente.
De ser grande demais para carregar sozinho…
De não ter o jeito certo de desembrulhá-lo. Desajeitados na busca de si mesmo, com um elefante numa loja de cristais… Se o nosso “eu” fosse só coisa nossa, acho que estariamos perdidos!
Creio ser por isso que a construção da nossa identidade passa também pelos outros.
Afirmar o outro é um jeito estranho de também se afirmar.
E o olhar daquele que nos ama, pode nos ajudar a entender muito sobre o que somos.
Uma menina me prendeu atenção a um tempo atrás …
Ela tinha um olhar bastante negativo sobre seu valor.
Vendo-se a si mesma como que com os olhos vendados.
Olhos feitos para o bem, mais não eram capazes de vê-lo.
Estavam gastos pelas dores que sentiu e míopes pelas durezas da vida… uma auto-estima estrábica…
Provoquei-a a ver bondade em si mesma…. Ela fazia muito esforço pra ver a beleza que tinha e quase não à via.
Tentei ver nestes mesmos olhos o que ela procurava.
Pois afinal, como dizem: “Só encontramos aquilo que procuramos”.
Não sei o que ela procurava… só sei que estava lá:
A beleza escondida do próprio dono… Esperando pra ser encontrada.
Nestas horas faz falta um tropeço… pra lembrar o real chão que nós pisamos,
Fazer-nos tomar a parte que nos cabe de nossa beleza e valor.
Ainda bem que o olhar de quem nos ama pode nos iluminar. Aceder as luzes do nosso quarto escuro, como quando éramos pequeninos e tinhamos certeza de ter visto vultos, fantasmas e afins…as luzes se acendiam e mostravam uma coisa que não éramos capazes de ver com as luzes apagadas..
Luzes que nos ajudam a ver o melhor de nós que ainda não somos capazes de enxergar.
A menina mencionada tinha uma beleza simples.
Toda beleza simples exige cuidado e atenção para ser vista.
Mas precisam sobretudo de olhos capazes de inaugurar.

Por Danillo Holzmann

Informes: Café com Biscoitos: Nova série e mais um colaborador

Café com Biscoitos

Salve Pessoas

A partir da semana que vem teremos mais um colaborador para o nosso blog (pois é, mais alguém pra fazer o café)  e uma nova série dessa vez com o tema sobre o Senso Religioso,

“No coração do ser humano existem perguntas que estão ligadas à raiz de todo o nosso agir, que são capazes de movimentar toda a nossa existência. Elas se expressam em questões como: “Porque vale a pena viver? Qual o significado último da realidade? Qual o verdadeiro sentido da existência?” Quando essas perguntas vêm à tona, quando elas se tornam conscientes e aparecem em nossa vida de maneira mais clara, chamamos essa realidade de senso religioso.”

Esse será o tema de nossa próxima série… Espero que curtam

Grande Abraço a todos

Danillo Holzmann

Cantar a Liturgia – Parte 03 (Final)

Salve Pessoas,

Canto LiturgicoSegue a nosso último post da série Cantar a Liturgia que propõe o método mistagógico como possibilidade de desenvolver melhor  a qualidade do nosso serviço a Deus, sobretudo na Celebração Eucarística. Seguem os três passos para tal  método aplicado ao ensaio do Ministério de Música ou sua banda.

Primeiro passo: descrição e análise da ação ritual

A música é uma ação ritual, expressão ritual de nossa fé, em forma de canto, de música. Como toda ação ritual, é feita de “sinais sensíveis” (SC 7) para expressar o mistério de Cristo e nos fazer parti­cipantes desse mistério. Quais são esses “sinais sensíveis” próprios da música ritual? O texto, a música e o contexto litúrgico. O texto (letra) tem a primazia. Olhamos seu conteúdo e sua forma literária, poética (construção do texto, o ritmo, as imagens simbólicas etc.)-Depois, analisamos a música (sons, melodia, ritmo, dinâmica, tem­po), “casada” com a letra, de forma a expressar o sentido teológico e a espiritualidade própria a cada celebração, a cada tempo litúrgico, levando em conta o momento ritual do canto. Por fim, perguntamos pelo contexto litúrgico, ou seja, a interação desse canto com os outros elementos rituais da celebração: a assembléia e seus ministérios, as leituras bíblicas, as orações, os símbolos e ações simbólicas, as ati­tudes e movimentos, a própria estrutura e dinâmica da celebração.

Primeiro momento de ensaio: deciframos a partitura, ensaiamos as várias vozes, saboreamos a beleza do texto, da melodia, do ritmo, para poder cantar bem e corretamente, do ponto de vista técnico-musical.

Segundo passo: aprofundamento do acontecimento da salvação, celebra­do na ação ritual e sua raiz bíblica

Procuramos, nas Sagradas Escrituras, uma ou várias passa­gens do Antigo ou Novo Testamento que explicitam a salvação celebrada na ação ritual que estamos focalizando (ou seja, no canto que está sendo analisado). 

Aprofundamos o sentido teológico desse aconte­cimento de salvação relatado nas Escrituras, incluindo a interpre­tação em relação à nossa realidade atual. Dessa forma, estaremos em condições de cantar “com inteligência”, fazendo com que nossa mente compreenda e acompanhe aquilo que nossa voz canta. Nos­so canto tornar-se-á um ato de fé em Deus, que está ativamente presente e atuante em nossa história.

Segundo momento de ensaio: prestamos atenção ao sentido teológico, de modo que possamos cantar com inteligência e expressar este sentido pela nossa maneira de cantar.

Terceiro passo: experiência da salvação acontecendo para nós, hoje, na e a partir da ação ritual

Agora, voltamos de novo nossa atenção para a ação ritual. Levamos em conta que o canto, na liturgia, para que cumpra seu papel, deve ser entendido e vivido como “fato de experiência”. Aquilo que o canto anuncia deve acontecer para nós e em nós, na ação litúrgica, pela realização da ação memorial. Por isso, não basta cantá-lo bem tecnicamente, nem acompanhar com a mente e com­preender o que cantamos como se fosse algo fora de nós. É preciso entrar pessoalmente dentro do rito e vivenciar a ação ritual espiritualmente, “incorporando” o canto, deixando que ele nos trans­forme, interagindo com Jesus Cristo Ressuscitado e o Espírito de Deus, que atuam na ação litúrgica. Como tudo na vida, é preciso aprender isso. Pode-se, por exemplo, no momento do ensaio, pro­por uma leitura orante e, em seguida, uma vivência da ação ritual “como se fosse” numa celebração de verdade. Somente assim será possível participar daquilo que estamos celebrando: o Mistério Pascal desdobrado em inúmeras facetas ao longo do dia, da semana e do ano litúrgico, nos diferentes tipos de celebração (missa, outros sacramentos ou sacramentais, Liturgia das Horas ou Ofício Divino, Liturgia da Palavra etc.), nas circunstâncias históricas de nossa vida pessoal e social.

Terceiro momento de ensaio: procuramos “experienciar”, vivenciar a atua­ção do Espírito de Deus em nós, na e por meio da ação ritual, “como se fosse” na própria celebração. Trata-se de cantar espiritualmente, com devoção, “de coração”, além de cantar bem e com inteligência.

Desafio para o regente ou coordenador do grupo de canto

O método proposto depende, em grande parte, da qualidade do(a) regente ou coordenador(a) do grupo de ministros(as) do can­to. Ao menos quatro exigências são impostas:

1)  Ter formação musical razoável. É desejável que nossas co­munidades e dioceses se lembrem de investir nessa formação de quem tem talento e disponibilidade para o ministério da música na liturgia.

2)  Não basta ser um bom ou excelente músico ou regente:
é preciso ainda ser um mistagogo, isto é, alguém que é capaz de
“guiar para dentro do mistério”, com um mínimo de conhecimen­to de Bíblia, Teologia, liturgia, e com experiência espiritual. Nada impede que se trabalhe em conjunto com outra pessoa, a qual se encarregue desta parte, contanto que o(a) regente não se esquive de participar desse momento espiritual, para que não se separe téc­nica de mística.

3)  No método mistagógico não cabe uma explicação fria, im­pessoal, pura nformação. Trata-se de “transmissão” no Espírito de Jesus Cristo. Ela vem carregada de experiência espiritual. Somente assim o canto, na liturgia, chegará a ser um “fato de experiência”.

4)  É preciso saber “dosar” os conteúdos e os passos. Adaptá-los a cada grupo e ao tempo disponível.

(Ione Buyst& Joaquim Fonseca, Músicaritual e Mistagogia, 2007.)