CARPE DIEM: Sobre as pressas e as inteirezas

Depois de um período sem postagens e com o tempo escasso por conta de uma nova graduação no período da noite, vejo minha vida ficar corrida e cheia de tantas pressas imerecidas (Embora com colegas e companhias maravilhosas, cansa só de pensar).

Queria começar nossa prosa cafeínica de hoje com um poeta argentino chamado José Hernández que num poema intitulado O gaúcho Martín Fierro dizia que “O tempo é a tardança daquilo que se espera”. Num mundo que pede pressa, a Coca-Cola – acreditem se quiser – quer me dar lição de calma na propaganda de suco em caixinha. Juro que achei graça quando vi. Abra a caixinha, não vendemos um produto, mas “qualidade de vida”. Definitivamente, acabo achando que a vida é movimentada pela pressa e velocidade. Vivemos uma vida marcada pela avidez de estar presente em tudo que é possível. No nosso mundo, é uma empreitada praticamente impossível estar presente em um lugar e não estar em outros ao mesmo tempo. Nossa interioridade, felizmente, não obedece as leis da física e voa pra onde quer, ou precisa estar.

Costumamos num tom saudosista, como nostalgia dos nossos delírios de mundo – se formos honestos… nada era tão bom assim – que existem apenas na nossa imaginação. É preciso admitir que as nossas representações de mundo mudam, nossos modos de enxergá-lo mudam. E pela teoria de que “o jardim do outro é muito mais bonito que o meu”, continuamos a ouvir, e a muitas vezes professar, que em tempos longínquos a vida era melhor vivida, que hoje em dia somos uma geração que vive como se não tivesse passado algum, somos incapazes de tornar viva memórias de nossas origens, que recusamos tradições. Também somos acusados de falta de freio, gente que mal conseguem levar à sério a si mesmo e as reais demandas da própria subjetividade, o que faria de nós uma geração sem futuro. Isso nos coloca no cerne de uma demanda pós-moderna: Sem passado e sem futuro, empenhamos tudo no agora.

Passei alguns dias digerindo a expressão: CARPE DIEM! Essa que enfeita alguns corpos com tatuagens em tipografia caligráfica. Como se essas inscrições, sacramentassem a nossa presença, ou pelo menos o nosso desejo coletivo de não passar pelo mundo como uma geração irrelevante. A presença é a categoria que nos atualiza na realidade, que nos envolve nela de maneira concreta. É na presença que a vida ganha significados, onde se constrói sentido. Só nos fazemos presentes naquilo que para nós rompe a vitrine e toca nossa realidade, aquilo que encontramos na vida. Caso contrário, temos uma presença opaca, com autenticidades refinadas, higienizadas do que há de mais viceral e verdadeiro em nós.

Diante dessa avidez de tomar o mundo num gole só, cabem alguns questionamentos importantes: Onde está o ponto que me une ao todo? Onde está aquilo que não faz da minha existência uma série de acontecimentos sem sentido, sem conexão entre si? Querer o instante de maneira intensa e completa não significa, sobretudo, abraçar a conexão dele com o todo? Caso o contrário, não vivemos apenas um recorte de realidade? Há a possibilidade dos recortes serem o todo em algo? Viver, é aceitar o desafio de procurar o fio que me une ao todo. O destino que eu espero, propõe o mapa de como eu vivo o agora, faz com que a “u-topia (não lugar)” se torne “topia (lugar)”, talvez assim eu entenda melhor o tempo como tardança daquilo que se espera, como aquilo que vai adiando, adiando, adiando… mas atualiza a presença na expectativa.
Não há tempo presente que não seja o resultado de um passado e nem um preparo para um futuro. Acho que a expressão “carpe diem” (“colha o dia”, segundo o poeta Ruben Alves) é muito mal interpretada quando reduzida à perspectiva do recorte. É um modo de alienação, de anulação da liberdade, pois, priva a pessoa de uma dimensão estruturante de sua personalidade: da relação com o seu próprio destino, com sua própria finalidade e possibilidade de realização.
Talvez por isso que “curtir” o instante de modo inconseqüente é algo que dá um estranhamento ao ser humano, claro, se ele for honesto com suas demandas subjetivas.  Negar a raiz do passado e o impulso para o futuro, é negar-lhe sua relação com a realidade, é roubar-lhe a responsabilidade que só ele tem de construir a própria história. E o homem pode suportar muito sofrimento, mas nunca ser algo que não é.

O processo de ser pessoa, esse jeito bonito que Deus nos deu para empenharmos nossa felicidade é sempre um “já” presente no tempo, mas é também prospecção, é impulso para o futuro. Um “devir”que me abre o horizonte de carregar nos braços aquilo que fui e que sou, para através do instante, do presente que foi preparado com o que passou, congregar minha história ao que ela deve se tornar. Parafraseando o profeta Jeremias: Somente o que é assumido pode ser redimido.

02 de junho de 2011

Por Danillo Holzmann

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“Empatia” é (quase) amor?

Olá pessoas, 

A capacidade de colocar-se no lugar do outro sempre foi compreendida como uma virtude nobre, como algo constitutivo do que significa ser humano. C. Rogers, o criador da chamada Abordagem Centrada na Pessoa, que extrapola os muros da psicologia e influencia os modos de agir de inúmeras áreas do conhecimento, propõe um conceito interessante que vale a pena refletirmos: o conceito de Empatia! No café de hoje, a presença e a citação do grande Carl Rogers (que também era teólogo… sintoma de otimismo..rsrsr):

“A maneira de ser em relação a outra pessoa denominada empática tem várias facetas. Significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente à vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nesta pessoa em relação aos significados que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao que quer que ele/ela esteja vivenciando. Significa viver temporariamente sua vida, mover-se delicadamente dentro dela sem julgar, perceber os significados que ele/ela quase não percebe, tudo isto sem tentar revelar sentimentos dos quais a pessoa não tem consciência, pois isto poderia ser muito ameaçador. Implica em transmitir a maneira como você sente o mundo dele/dela à medida que examina sem viés e sem medo os aspectos que a pessoa teme. Significa frequentemente avaliar com ele/ela a precisão do que sentimos e nos guiarmos pelas respostas obtidas. Passamos a ser um companheiro confiante dessa pessoa pessoa em seu mundo interior. Mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivênciais, ajudamos a pessoa a focalizar esta modalidade útil de ponto de referência, a vivenciar os significados de forma mais plena e a progredir nesta vivência.
Estar com o outro desta maneira significa deixar de lado, neste momento, nossos próprios pontos de vista e valores, para entrar no mundo do outro sem preconceitos.” (C. Rogers, no livro A pessoa como centro)

 
 

Vi esse vídeo como atualização no facebook de uma amiga queridíssima (Beta, grata surpresa numa sexta-feira santa, ver isso no seu perfil) e essa frase não saiu da minha cabeça… Empatia é (quase) amor?

Talvez uma postura um pouco mais empática seria um grande passo pra um mundo diferente… que corresponda mais ao nosso coração, ou, parafraseando o título de uma obra de Nitzsche,  um mundo mais “Humano,  demasiado humano”.

Hoje, é um dia em que os cristãos celebram a empatia do Sagrado com as nossas misérias e nossos medos, todos eles, o maior de todos eles: a morte. Esse momento inevitável em que o humano se percebe nu, só,  frágil, efêmero, finito, é “re-significado”: não estamos sós… E se a tradição cristã é capaz de afirmar uma verdade de que Deus experimenta a morte por empatia para com o ser humano, para dizer-lhe que ele não está só, temos algo a aprender com isso: nunca se está só enquanto houver potencialidade empática no ser humano, até mesmo na morte quando morremos um pouco com cada um que se vai, a realidade nos afeta, nos move.  E essa capacidade de mover-se por causa de um outro, atualiza o sagrado em nós…

atualiza o humano em nós…

atualiza o “ser gente” em nós

Empatia é (quase) amor!

 
 Por Danillo Holzmann

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/04/01/%C2%A0%C2%A0%C2%A0oracao-de-nietzscheao-deus-desconhecido/

Coragem de ser: Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

Inventados e Inventores

É curioso o jeito que às vezes usamos para descrever as pessoas resumindo-as ao que fazem. Usamos os atos humanos como possibilidade de definições.
Não que não haja relação entre o que se é e o que se faz. Nós não somos gavetas e essa proposta dualista,  a qual somos sempre inclinados a adotar, não resiste a realidade: o ser humano existe concretamente como uma unidade de realidades por vezes conflitantes, mas em unidade. Quero convidar para tomar um”menorzinho” – como dizemos na Bahia –  o filósofo mineiro Juvenal Arduini que nos diz em sua obra Destinação Antropológica:O homem é a realidade mais profunda e mais complexa que conhecemos no âmbito do universo natural. Por isso oferece visualizações diversas sobre a mesma totalidade (…) Há que se evitar o reducionismo antropológico que concentra a visão sobre determinada dimensão humana como se fosse a realidade toda (…) O homem só será suficientemente compreendido se as diversas dimensões antropológicas forem vistas com espírito conjuntivo.(…) A dimensão, por natureza, qualifica e expressa o ser todo do homem, em determinada perspectiva”. O nosso AGIR/FAZER doa um pouco de nós ao mundo.

Talvez encontremos aí um jeito diferente de pensar o nosso AGIR/FAZER no mundo e sobretudo o nosso trabalho: como um modo de expressar o que nós somos, um modo de “ser no mundo”, de interferir na realidade, de atualizar o “possível” na existência.
Na narrativa mítica da Criação encontrada nos primeiros capítulos do  livro do Gênesis, Deus não cria o mundo perfeito como Ele mesmo é… se assim o fosse, o mundo jamais poderia ser mundo, seria apenas uma extensão de Deus. No ato criador, algo de  realmente novo acontece, uma verdadeira criação. O mundo não é  criado perfeito, mas “por –ser- feito”, e é justamente nesse contexto que podemos pensar o significado de dignidade do trabalho humano. O homem não apenas age para conservar o mundo, ou para recebê-lo como seu passivo beneficiário . Mas está para ele como um cooperador ativo do Criador no esforço de tornar sólida uma harmonia que ainda se encontra latente na criação. Levar o mundo em seus braços até a sua fonte e origem. No germe de todo trabalho autenticamente humano está neste movimento: Trazer à superfície a harmonia latente e possível do mundo. Atualização de um devir cósmico. Nesse constante processo de feitura,  a pessoa é também chamada a exercer sua criatividade, passando pela experiência do fazer-se: Requer trabalho e criatividade.

Entendendo isso nas relações humanas, duas realidades são típicas do amor: a capacidade de empenhar-se (trabalho) e de criar “mecanismos” próprios para nutrir-se (criatividade). Todo esse esforço e empenho nos direcionam à simplicidade. Estranhamente, diferente do mundo criado, para o ser humano, a simplicidade é uma conquista. Ela não vem pronta, é sempre o resultado de um processo pessoal.
Simplicidade é quando empenhamos força apenas para ser aquilo que somos;
Mesmo se achamos que não é grande coisa.  O terreno onde a simplicidade acontece é quando a nossa capacidade de acolhimento é primeiramente vivenciada com a nossa própria subjetividade. Quem não aprendeu a conjugar o EU, dificilmente saberá conjugá-lo com o TU ou com o NÓS.  E assim assumir a responsabilidade que lhe cabe de crescer e amadurecer no processo pessoal e interpessoal.
Nesse processo de “dispor de si” devemos ter o cuidado para não nos inventarmos, correndo assim o risco de nos imaginar e não de descobrir-nos. Descoberta e invenção são duas coisas distintas.
Inventar-se, nesse contexto, é um jeito de se imaginar na vida, de produzir uma imagem de si que resume as pessoas com quem nos relacionamos a meros espectadores, em que ninguém nos encontra de fato, apenas se enroscam na nossa representação… resultado: deixamos de viver a vida. Colamos uma máscara no rosto e nos descuidamos do que somos…como na triste poesia de Álvaro de Campos:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.”

Desse modo não há mais espaço para a criatividade, pois, não existe um sujeito concreto que a opere. São fantasmas, e fantasmas não interferem de verdade no mundo, apenas aterrorizam nossa imaginação, enfeitam ou sujam cenários irreais de nossos  devaneios.
É preciso realidade! É preciso verdade! Aceitar e acolher quem somos.
Aceitar o nossa limitação também faz parte da dinâmica da simplicidade.
Onde não há limite, não há espaço pra crescer nem pra amadurecer.
Esse espaço é a verdade sobre nós. Autenticidade não é para fracos e medrosos.
Mas para quem tem coragem de estender a mão e tomar nos braços a verdade que lhe cabe. E também levá-la nos braços para a sua origem. Como o homem faz com o mundo. O homem é um eterno carregador de sua verdade e da verdade do mundo. Embalando e ninando nos seus braços o real e a sua história.
Num mundo de inventores e inventados… Ter a coragem de SER.

Encontros:Intimidade e Experiência Estética

Dizer o que somos é também falar dos encontros que fomos capazes de promover ao longo de nossa existência mas também dos desencontros que fomos capazes de provocar (ou sofrer)… a matéria prima onde é plasmada a nossa identidade é feita de encontros e despedidas (como na canção de Milton Nascimento) .
Essa semana refletia na possibilidade de que todo o encontro é como que uma experiência estética… hum… vamos chamar logo alguém pra nos ajudar nesse café….Café expresso… e quem nos ajudará na “alquimia cafeínica” de hoje é o Filósofo e Teólogo Suíço Urs von Balthasar (1905)…ele escreve uma obra chamada Uma Estética teológica, em que faz uma leitura da Revelação cristã em termos estéticos, porém o que vai nos interessar para a nossa prosa de hoje é a idéia de que, inserir o elemento estético como chave da experiência do encontro,  não debilita nem minimiza o objeto a uma realidade evasiva e abstrata (no caso de von Balthasar, a Revelação Cristã), mas antes,  pode abrir para acolher o fenômeno, mesmo que esse se apresente de modo limitado e incompleto,  em toda a sua complexidade. Explico melhor – eu espero mesmo explicar melhor…rsrsrs – , sem a experiência estética, não é possível nenhum conhecimento verdadeiro e autêntico, pois embora possamos enquadrar as realidades em categorias de verdade e justeza como também julgar a sua relevância para o nosso bem estar,  sem a ATRAÇÃO (ferramenta estética)  elas não teriam força de personalização, de quebrar a vitrine e sair da condição de algo que observamos sem um envolvimento, para se tornar ENCONTRO. Convido a senta-se à mesa pra o nosso café, a também genial Adélia Prado: “Não quero a faca nem o queijo, quero a fome!” A unica coisa que é nossa nos encontros que estabelecemos na vida, não é o objeto desejado, mas a fome, o desejo. Essa é a porta que nos é aberta como possibilidade de encontros autênticos. O outro tem algo que em mim falta, é “devir” e possibilidade (ENCONTRO) ou outro trouxe algo que em mim sobra, é excesso e ocupa o um lugar que não lhe pertence (DESPEDIDAS).

Viver é saber-se portador de uma beleza a ser desvendada para aquele que tem paciência e descobriu o valor da espera. Que compreende o valor e a importância dos processos. Acolher essa realidade que nos enriquece do outro e o outro de nós, é um jeito muito bonito (estética de novo..rsrsrs) de ser gente. Precisa tempo, precisa trabalho, empenho, pois encontrar os outros de verdade não é fácil e acreditem, tem muita gente se esbarrando por aí. Pós-modernidade do “esbarrão”… Falsos encontros não enriquecem realidades, não criam espaços comuns de autenticidade, são donos de uma beleza efêmera e não são capazes de ver além do parcial e fragmentado. E por isso mesmo: Pós modernidade da Performance!

Matamos as potencialidades pessoais desse ser nascido para o encontro e a intimidade e que se nutre justamente da qualidade dos encontros que faz.
Por que se formos honestos, não conseguimos dizer com clareza quem somos,
deixando de fora aquilo que fomos capazes de congregar na nossa intimidade.

A intimidade é o que nasce do encontro verdadeiro, é esse o “espaço” em que congregamos nosso real, nossos desejos e sonhos, nossas esperanças e lutas, nossas histórias e saudades… neste espaço chamado “nós”.

No “nós”, apenas você e eu temos a chave. E na medida que isso cresce vamos tendo menos coisas a colocar nesta casa feita pra acolher a totalidade do outro. De maneira que não é mais possível conjugar o “nós” sem ter na sua perspectiva uma doação total do que se é e um acolhimento total do que o outro é. A intimidade tende naturalmente para a totalidade dos “EUs” empenhados numa trama interpessoal que se chama “NÓS”.

Neste fim de semana passei bons momentos na casa de um casal amigo com pessoas que embora vendo-os sempre, pelas circunstâncias profissionais à muito não os encontrava. Gente que encontrei verdadeiramente na vida. Encontros verdadeiros, muita coisa já congregada, muita vida já partilhada
Tinham o poder de me fazer desejar ser mais eu, me lembravam coisas que
um dia coloquei no espaço da intimidade e como um papel velho lançado
no fundo de uma gaveta eu já havia esquecido.

Há lugares de nossa vida que esquecemos de cuidar por que já nos acostumamos e diminuímos o seu valor como uma luz que esqueci de apagar ontem… achei que tinha feito… me acostumei a apagar luzes sem prestar atenção.
Do mesmo modo acostumamos-nos a nos olhar apressadamente, com olhar de críticos de arte, estética mórbida, astigmática, luzes difusas e dispersas que não encontram ninguém pois pederam a capacidade de foco, só enxergam multidão: despedidas “sem querer … querendo” (como dizia o Chaves da TV) . Mas sendo franco, fico feliz porque na vida existem encontros de verdade. Realidades que nos apontam para o nosso destino o tempo todo. Naquele papel no fundo da gaveta, que mencionei acima, estava escrito: Você não tem o direito de me imaginar.

Por Danillo Holzmann

“Re-comece”: O amor é uma Surpresa

O amor é uma surpresaSobre criatividade de nutir as relações humanas

Acho engraçado o jeito como escolhemos as palavras para iniciar um diálogo com alguém. Acentuamos nossas qualidades, atenuamos nossos limites, vamos nos mostrando aos poucos, um passo de cada vez…  Assim é o processo natural de tudo que é grandioso na vida: precisa ser olhado sem pressa. Com o cuidado de quem contempla um dom. Daí, escolhemos o melhor que temos em nós mesmos para oferecer ao outro.
A alguns meses atrás,  fiz uma amizade bastante significativa através de um meio de comunicação bem criticado para tais fins e diria até considerado improvável para isso: afinal, quem consegue fazer uma amizade verdadeira pelo msn ? Bom, eu fiz.

Percebi o quanto no início de tudo eu ficava preocupado em escolher bem as palavras, para não ter ambigüidades em relação ao que eu queria dizer, não quis deixar a oportunidade de verdadeiramente encurtar as distâncias, derrubar muros e construir pontes… creio que um “bon vivant” é medido pelos muros que derrubou e pelas pontes que construiu.
Nossas relações, essas benditas pontes que construímos na vida, gozam de uma grande responsabilidade na construção do que somos: Elas são peças importantes, fundamentais, para o desenvolvimento de nossa subjetividade. Gosto de um filósofo judeu chamado Martin Buber que fazia uma colocação interessantíssima para nossa prosa de hoje. Ao dizer a palavra EU essa nunca vem sozinha, ela supõe duas realidas inauguradas a partir da subjetividade afirmada. Porque o EU é relação, dizia ele. Para Buber, duas são essas realidades que interagem de modo concomitante a afirmação do EU: o TU e o ISSO. O EU, é relação com uma outra subjetividade diferente de si: um TU, ou com um objeto: um ISSO.
Talvez umas das experiências mais emblemáticas da relação EU-TU que reconheço no cotidiano é a experiência do “re-começo”. Compreendo o “re-começo” não como o ato de ignorar o passado, ou como voltar ao ponto inicial de alguma circunstância,como “voltar do zero”… O “re-começo” é como uma força criativa capaz de nutrir essas relações, de atualizar o mistério do outro e assim dirigir-se a ele em estado de inaguração. Reconhecer o outro como mistério, não quer dizer que ele não possa ser conhecido, mas, que não pode nunca ser esgotado e aí está a fonte do “re-começo”: adquirir olhos capazes de inaugurar, porque a grandiosidade do outro se põe diante de nós como mistério que se abre a ser conhecido, mas nunca esgotado.
Gosto de pensar o “re-começo” também como a evocação de um dado tempo na vida em que escolhemos o melhor de nós para doar ao outro. Toda experiência de “re-começo” que fazemos na vida é também um jeito de voltar à origem do movimento em direção ao outro.
Tive um final de ano tenso e difícil, marcado por inseguranças, desencontros e solidões, dificuldades e dissabores… final de ano pesado! Como quem sente nas mãos o peso das próprias escolhas. Não existem escolhas sem perdas e ganhos. Todas elas, carregam dentro de si esses dois contrários irreconciliáveis: uma criatividade que a vida encontra para fazer um caminho ser único e irrepetível.
Dentro das fontes do “re-começo” estão guardadas verdades que podem ter perdido o valor dentro de nós, e que apenas esse movimento, pode nos livrar das páginas amareladas e com marcas de traça da nossa existência : a descoberta do novo no óbvio.

O “re-começo” é necessário, sobretudo em nossas relações, porque garante a capacidade de surpresa, e tudo aquilo que não é capaz de nos surpreender, perde o valor para nós. Para entendermos bem o que significa essa surpresa é necessário uma disposição interior para acolher o mistério do outro.
Triste é ver amores que não surpreendem mais. Mas não aquela surpresa que quer o novo pelo novo. Uma busca ávida por um estado de “adrenalina”. Como se viver fosse como praticar esportes radicais ou como se a vida funcionasse dentro dessa mesma lógica: É preciso ter emoção! Não é preciso haver amor pra ser ter “emoções fortes”. 

Resumir o amor a um eterno estado de paixão só nos ajuda a ficar cada vez mais presos a um estado imaginativo: Encontramos com o outro de maneira “artística”,  na perspectiva daquilo que eu projeto ou imagino: Não nos iludamos… Isso não é encontro. Seremos inebriados por uma evasão estética. Por outro lado essa etapa é importante, pois, talvez não suportaríamos encontrar de verdade o outro se este, antes, não despertasse em nós um encantamento, não nos atraísse para uma comunhão. Seríamos vítima do olhar apressado.

O amor é tempestivo, quer despertar cada coisa ao seu tempo segundo a intimidade que é alimentada e empenhada, pois, tem como finalidade acolher a totalidade do outro. O “re-começo” entra aí, não como uma volta a um tempo de paixão que não existe mais, mas como uma espaço para o cultivo que nasce de uma certeza: Todo ser humano é único e irrepetível, assim como é singular o seu caminho, e por isso mesmo é um mistério que nunca pode ser esgotado. Portanto, é sempre capaz de nos surpreender, assim, como tudo que é verdadeiramente bom e grandioso na vida. Amar alguém é um empreendimento de uma vida inteira. É um dom maravilhoso que se desdobra numa tarefa: através do cultivo e do “re-começo” alimentar e nutrir o caminho da intimidade.

Seja criativo, “re-comece”!

Por Danillo Holzmann

Café com Biscoitos: Canção: Deus (Luíz Caldas)

Salve pessoas,
Fiquei encantado com a qualidade musical desse artista…abram o olho galera
Não é fácil achar gente desse calibre: Sensibilidade musical ímpar, que letra, que melodia e que execução…o cara é muito fera… curtam o som…e tomem esse belo expresso com o Sagrado.
Grande Abraço a Todos
Danillo Holzmann